Adrenalina demais vira
uma inimiga

O estresse é como um combustível. Em momentos de risco, eleva os hormônios adrenalina, noradrenalina e cortisol, que permitem uma tomada rápida de decisão em um momento de tensão. Assim, o indivíduo tem mais energia para reagir ao que acontece. Porém, quando a pessoa não sabe lidar com a sensação e o estresse passa a ser constante, o organismo pode ficar sobrecarregado, afetando o corpo. É quando a adrenalina passa a ser uma inimiga.

Em meio à crise financeira, o estresse se torna parte da rotina, tanto para quem está trabalhando e enfrenta o medo do desemprego e aumento na carga horária de trabalho, quanto para quem está desempregado e precisa encarar os desafios da busca por uma nova ocupação. A legislação previdenciária brasileira considera o estresse uma doença ocupacional desde 1999. As consequências são sentidas diretamente na produtividade. Estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que países da União Europeia perderam até 4% do Produto Interno Bruto (PIB) em decorrência de problemas mentais em trabalhadores.

“Para as organizações, os prejuízos financeiros provocados pelo estresse ocupacional são visíveis: os atrasos excessivos, o aumento no número de faltas e de licenças médicas. Além disso, os prejuízos ainda podem ser percebidos com a baixa criatividade do empregado, problemas de relacionamento interpessoal, desorganização do trabalho, dificuldade de cumprimento de prazos e demora na tomada de decisão”, relata a psicóloga Suely Mendonça.

Os efeitos podem ser mais graves. Desde tensão muscular, dor de cabeça e dermatites, até doenças mais graves, como a hipertensão arterial (confira a matéria vinculada abaixo sobre os efeitos no coração), problemas digestivos e diabetes. “O cortisol elevado altera a mucosa do estômago, que pode gerar a gastrite. O mesmo hormônio também aumenta a quantidade de glicose no sangue. Por longos períodos, pode predispor a diabetes", explica o professor do departamento de psiquiatria da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Amaury Cantilino.

Há fases diferentes do estresse, comenta Suely Mendonça. A primeira é a de alerta, considerada positiva, pois é quando a pessoa ganha energia através da produção da adrenalina. Se o fator de estresse perdurar, ocorre a resistência na tentativa de manter o equilíbrio interno. O organismo fica, então, enfraquecido.

A persistência desse momento de tensão gera a quebra da resistência, levando a um desgaste maior. A memória é afetada, a ansiedade se instala. Por último, o indivíduo chega à fase de exaustão, em que doenças graves ocorrem, atingindo os órgãos de maior vulnerabilidade genética ou adquirida.

A bancária Orácia (nome fictício), 39 anos, passou por todos esses momentos. A somatização do estresse no dia a dia do trabalho levou à exaustão do corpo e da mente. Ela sofria calada por causa de assédios de uma superior. “Uma vez, fizeram uma avaliação minha e colocaram coisas absurdas, que não tinham nada a ver com o meu desempenho profissional. Era algo pessoal. Eu não podia expor minhas emoções, não podia falar nada lá, era como se eu fosse um robô. Eu cheguei a fazer uma cirurgia de vesícula, e isso tudo foi um processo nervoso que o meu organismo absorveu. Depois de oito dias, eu fui, às pressas, socorrida novamente. Estava com apendicite aguda. Nas duas vezes, os médicos me disseram que eu estava sob alto nível de estresse”, explica Orácia.

Esses casos aconteceram em 2010. Por se recusar a tratar as causas emocionais do problema, Orácia sofreu outras manifestações fisiológicas nos anos seguintes. Uma viagem à praia foi estragada por causa da febre de 40 graus, resultado de uma bactéria que se instalou em sua garganta, devido a imunidade baixa. Em 2012, teve um ataque do pânico. “Estava me arrumando para ir ao trabalho. Quando fui pegar a bolsa para sair de casa, minha perna direita não saiu do canto. Senti uma pressão no peito muito forte, falta de ar e um formigamento na cabeça. Pensei que ia ter um aneurisma. Foi o fator decisivo para me levar ao tratamento”, diz.

Ainda hoje, no trabalho, Orácia não está livre do estresse. Na crise financeira atual, a movimentação de clientes caiu, trazendo o medo do desemprego. “Na agência em que eu trabalho a movimentação caiu muito. A crise chega para mim na forma do seguinte pensamento: ‘meu Deus, será que eu vou ser um funcionário caro para essa instituição e essa instituição vai querer me cortar?’”, pensa. Orácia faz tratamento psicológico e participa de grupos psicoterapêuticos para enfrentar o dia a dia.

Estresse agrava quadro de psioríase de Marcos
Estresse agrava quadro de psioríase de Marcos. Desempregado, não manteve tratamento
Ele precisou voltar de São Paulo
Ele precisou voltar de São Paulo para cuidar do pai doente, prejudicando o casamento
DESEMPREGADO VIU SUA DOENÇA PIORAR

O desemprego também é um fator de estresse que pode levar ao adoecimento do corpo ou ao agravamento de uma condição já existente. Foi o que aconteceu com Marcos, 37 anos. Ele tem psoríase, doença autoimune caracterizada pelo aparecimento de placas vermelhas na pele. Ele está desempregado há dois anos e sente que sua condição se agravou.

“Eu sinto muita coceira, chego a me ferir. Também tenho muita dor de cabeça. Hoje, acho que durmo de duas a três horas por dia. Isso tudo afeta o sistema nervoso, sou ansioso”, comenta. “Quando eu trabalhava como estoquista em uma editora, o problema tinha dado até uma parada, mas, depois do desemprego, voltou com tudo”.

A doença se agrava ainda mais com o orçamento apertado porque Marcos não teve condições de manter o plano de saúde. Há um ano, interrompeu o tratamento da psoríase, para ajudar o pai que convive com a doença de parkinson. Os cuidados com a própria pele são caros e consistem no uso de um xampu de 200 ml (R$ 325) e cetoconazol (R$ 30). Atualmente, porém, todo o dinheiro que consegue, por meio de bicos e serviços, é destinado à compra dos remédios para o pai. Uma caixa custa R$ 40. Todo mês, ele tem que comprar quatro.

Cerca de 1,4 milhão de beneficiários deixou a rede de saúde suplementar entre 2015 e 2016, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). O plano empresarial foi o que apresentou maior número de desligamentos, por causa do desemprego. Mesmo assim, o Ministério da Saúde, por meio de nota, garantiu que tem capacidade para absorver completamente o aumento na demanda: “O Ministério da Saúde esclarece que todos os cidadãos têm direito ao Sistema Único de Saúde (SUS), tendo planos de saúde ou não. Atualmente, cerca de 150 milhões de pessoas acessam os serviços de saúde, exclusivamente, pelo SUS. O percentual de pessoas que perderam seus planos significa um por cento do total de usuários do SUS. O montante é possível de ser absorvido pela rede pública de saúde”.

O economista diretor da Fenasaúde e ex-ministro da Previdência do governo Fernando Henrique Cardoso, José Cechin, cita outros impactos na saúde privada. “Os reflexos da crise na saúde podem ser vistos sob três perspectivas: o impacto na saúde suplementar com a perda de beneficiários. Quando eles perdem o emprego, mudam o comportamento também, passam a fazer mais procedimentos eletivos não urgentes, pois observa-se um pequeno aumento na frequência da utilização. Por último, tem a crise na saúde das pessoas. Há evidências claras de que a recessão e a crise agravam problemas mentais e aumentam a taxa de suicídio”, comenta.

Estresse no trabalho
prejudica o coração

As doenças cardiovasculares sofrem influência direta do estresse e representam grande risco para a saúde. Elas são as principais causas de morte, com 350 mil óbitos, todos os anos, no Brasil. Entre os problemas mais comuns, estão arritmia e hipertensão arterial, que acometem 47,5 milhões de brasileiros. Por ano, ocorrem 57,5 mil óbitos em decorrência de infartos e 63 mil óbitos por acidente vascular cerebral (AVC).

Diante de estresse extremo, é comum sentir palpitações - batimentos fora do ritmo. Se a alteração cardíaca for confirmada por um eletrocardiograma, recebe o nome de arritmia. A taquicardia, aceleração da frequência cardíaca normal de 60 a 100 batidas por minuto, também é uma consequência.

“O estresse leva a pessoa a ter um estilo de vida não saudável. Gente estressada fica ansiosa. Quem fuma passa a fumar mais, quem bebe passa a beber mais. A maioria passa a comer mais, comer mais gordura, mais açúcar. Isso gera aumento da gordura corporal, dos níveis de colesterol e glicose. Facilita o aparecimento de doenças. Além disso, afeta o sono, uma das coisas mais importantes para manter o sistema cardiovascular funcionando adequadamente", explica o diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Celso Amodeo.

O estilo de vida do mecânico Juliano (nome fictício), 33, mudou depois que foi demitido há um ano. Ele engordou 15 quilos e passou a sofrer de insônia. A empresa onde trabalhou por seis anos demitiu dez mecânicos, alegando contenção de gastos. Juliano era responsável pelo sustento da mulher e do filho. Hoje, o orçamento da casa é baseado na aposentadoria da mãe.

Para tentar ajudar, Juliano trabalha como motorista do Uber. Durante a semana, tenta ignorar problemas como dores nas costas e inchaço dos pés, e roda até 12 horas por dia. No fim de semana, o número é bem maior. Quando trabalhou mais, chegou a 18 horas e conseguiu R$ 380, fora os descontos de 25% da empresa. Com o desemprego, não consegue pagar as mensalidades do consórcio do carro, que é sua principal fonte de renda atualmente.

No Natal do ano passado, começou a sentir dores de cabeça que não passavam com remédios. Quando foi ao médico, descobriu que a pressão estava em 18 por 12. “O médico disse que eu deveria tomar remédios por três meses para tentar baixar a pressão. Eu estou tomando e não consigo baixar mais do que 14 por 12”, explica Juliano. “Eu estou procurando, mas emprego mesmo não tem. Trabalhar no Uber é estressante e pode ser perigoso também. Eu sou um dos quase 13 milhões de brasileiros desempregados que esperam que melhore a situação. Mas não tem perspectiva nenhuma de melhoras nesse primeiro semestre”, lamenta.

ALÉM DA DOENÇA, O MEDO DA DOENÇA

O medo de uma doença grave é o principal motivo que leva as pessoas aos consultórios de cardiologistas. A preocupação surge de palpitações no peito, falta de ar, batimento acelerado, suor frio. Sensação de morte. Esses sintomas são, geralmente, relacionados a problemas cardíacos, mas podem ser a manifestação de um ataque do pânico, também consequência do estresse recorrente.

“A confusão entre doenças psíquicas e problemas cardíacos é conhecida de longa data. Todo cardiologista já atendeu inúmeros pacientes, tanto em emergência quanto em consultório, achando que estavam tendo um infarto, arritmia, mas, na verdade, depois de uma investigação mais detalhada, fica claro que é uma questão psicossomática”, afirma a médica cardiologista do Hospital das Clínicas, ligado à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Catarina Dias.

A dificuldade de reconhecer a diferença entre o que tem causas fisiológicas e motivações psíquicas acontece porque as sensações são semelhantes. Sintomas comuns são a palpitação e a falta de ar. Pessoas com doenças psicossomáticas relatam que não conseguem respirar e, por isso, puxam o ar com força e de forma mais profunda. “Acontece o contrário com portadores de doenças cardíacas e respiratórias. A frequência respiratória aumenta, eles tentam puxar o ar mais de 20 vezes, que é o parâmetro normal”, explica Catarina.

A pressão do trabalho como bancária, em que sempre era cobrada por resultados impossíveis e sofria assaltos constantemente nos trajetos, levava Sônia (nome fictício), 39, com frequência ao cardiologista. Ela sofria de taquicardia, dor de cabeça e hipertensão arterial. Só que o problema não era resolvido nas visitas ao médico. Quando tomava remédios específicos para o coração, sua pressão oscilava e ela chegava a desmaiar. “Eu ia trabalhar muitas vezes chorando. Ia direto para o cardiologista, vivia na emergência. Tomava remédio para enxaqueca, remédio para dormir. E fui levando assim. Eu insistia na parte fisiológica, não na emocional”, relata.

As crises não pararam. Simultaneamente, a situação no banco piorava. Até que, em 2009, passou por um momento em que não ficaram dúvidas sobre a origem dos seus problemas. “Um dia, acordei de madrugada e estava vendo o jornal de meia-noite. Infelizmente estava falando da crise que começou nos EUA. Comecei a achar que o jornalista estava saindo da televisão e queria me enforcar e comecei a visualizar aquilo, a gritar, gritar. Estava com taquicardia, cortei a tela do apartamento e queria me jogar. Foi uma crise de pânico”, conclui Sônia. Desde 2009, ela passa por tratamento psiquiátrico.