Crise financeira provoca
doenças no brasileiro

As consequências da crise atual do Brasil vão muito além dos recordes negativos da economia. O desemprego, que hoje já atinge quase 13 milhões de brasileiros, representa um número proporcional de famílias inteiras que não sabem como irão sobreviver até o fim do mês; os endividados, mais de 58 milhões, são pessoas que viram o milagre do crédito se transformar no pesadelo da inadimplência; a inflação ainda alta continuou a corroer o pouco que sobra de cada orçamento. O resultado dessa soma é uma população a cada dia mais doente. A falta de boas perspectivas adoece mente e corpo.

Dentro desse cenário, Pernambuco sentiu como a queda é proporcional ao tamanho do salto. Foi um dos Estados que mais criou vagas em 2010 - 98 mil. Seis anos depois, ficou em sétimo lugar entre as unidades da federação que mais fecharam postos de trabalho. Com um detalhe: todos os que tomaram a frente no ranking têm população muito superior. Ou seja, o impacto do fechamento de 48 mil vagas, em 2016, castigou os pernambucanos com mais intensidade. Não por acaso, no Estado, o aumento do número de licenças por depressão, ansiedade e estresse concedidas pelo INSS, entre 2010 e 2016, foi de 53,12%, percentual muito acima dos 2,96% da média nacional.

“Pernambuco foi um Estado onde se criou muito emprego em decorrência de um bloco de investimentos muito grande. Para se ter uma ideia, o PIB (Produto Interno Bruto) pernambucano, em 2014, foi de R$ 150 bilhões. O bloco de investimentos previstos era de R$ 110 bilhões, quase do tamanho de um PIB. Mas, na época, já se sabia que esse ciclo de desemprego ia acontecer porque, quando essas obras acabassem, haveria uma desmobilização. O problema é que esse momento de desmobilização coincidiu com a crise nacional e os efeitos foram muito mais sérios”, diz a professora de economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e sócia da Ceplan, Tania Bacelar.

Parte importante dos investimentos que impulsionou a economia local, a Refinaria Abreu e Lima, no Complexo Industrial Portuário de Suape, Região Metropolitana do Recife (RMR), dispensou 42 mil pessoas, em 2014, quando paralisou suas obras.

Dentro desse contingente estava o eletricista Arnaldo (nome fictício), 50 anos, que durante cinco anos recebeu, todos os meses, aproximadamente R$ 4 mil reais - algo inimaginável para muitos operários do Nordeste. “Se você vem com aquele salário, você tem crédito na praça. Se tem crédito, você utiliza para qualidade de vida. O salário era bom, então você comprava um carro bom. Hoje devo no banco, no supermercado, a TV a cabo foi cortada. Tô pegando emprestada uma rede wi-fi, porque sem isso não consigo procurar outras obras”, conta.

O eletricista sustentava sozinho o filho e a esposa, que foram grandes beneficiados pelo momento de fartura da família. O jovem de 20 anos entrou na faculdade particular, algo que os pais não tiveram a oportunidade, e que hoje está com mensalidades atrasadas. A mulher, que sofre de uma cardiopatia grave causada pela febre reumática, conseguiu fazer duas cirurgias como dependente do plano de saúde oferecido pelo trabalho de Arnaldo. Entre os sintomas físicos e emocionais que Arnaldo passou a sentir, a partir do desemprego e do endividamento, estão a falta de sono, dores fortes de cabeça, zumbidos no ouvido e oscilações de humor.

“O ser humano é biopsicossocial, o que quer dizer que seus aspectos biológicos, psicológicos e sociais estão diretamente relacionados. Dessa maneira, em momentos de crise individual ou de grupo, quando um dos aspectos é afetado, os demais acabam prejudicados. Em momentos de crise econômica, em que famílias ficam desprovidas de suas necessidades básicas, como segurança, moradia e alimentação, por exemplo, a consequência é imediata na saúde física e mental da população”, afirma a psicóloga do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (IPQ-HCFMUSP), Mirella Mariani.

A relação entre crises econômicas e a saúde mental das pessoas motivou um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS). No artigo Impact of economic crises on mental health (Impacto da crise econômica na saúde mental, em português), foram analisados os reflexos da crise global de 2008, iniciada nos Estados Unidos, sobre a população da Europa. “Boa saúde mental permite flexibilidade cognitiva e emocional e são bases para habilidades sociais e resiliência diante do estresse. Esse capital mental é de importância vital para o funcionamento saudável das famílias, das comunidades e da sociedade”, afirma o texto da pesquisa, que conclui que crises afetam diretamente a saúde emocional da população.

Raio-X da economia

13

milhões de desempregados aproximadamente

6,29%

Inflação para 2016

13,75%

de juros da Taxa básica (Selic) em 2016 - Banco Central

58

milhões de inadimplentes* (SPC Brasil)

3

A cada três novos desempregados no mundo, um será brasileiro (Dados da OIT)

87%

dos entrevista­dos acreditavam que o Brasil estava no rumo errado em dezembro de 2016 *Pesquisa Pulso Brasil, realizada pela Ipsos

13%

dos brasileiros afirmavam que a economia nacional atual é muito boa ou boa em dezembro de 2016. O Brasil está na última posição nessa categoria.

54%

dos brasileiros acreditam que a economia ficará mais forte nos próximos seis meses. *Pesquisa The Economic Pulse of the World, realizada pela Ipsos em 25 países

Consumo de remédios

Pessoas com predisposição a doenças mentais são mais sensíveis a momentos de instabilidade, mas as consequências físicas e psicológicas de um cenário onde não há perspectivas positivas para médio prazo atingem a todos. “Quando parou a refinaria, eu acordava já preparado. Pegava minha bota, fardamento. Depois que parou, duas vezes aconteceu de eu sair e minha esposa perguntar: ‘vai para onde?’ e eu dizer: ‘trabalhar’. Até cair a ficha”, lembra Arnaldo, cujo corpo não se adaptou à falta de uma rotina rígida de um operário.

Enquanto faz bicos e sonha em retornar a grandes obras, o eletricista vive na casa da mãe, cuja aposentadoria é a única fonte de renda fixa da família. Diferentemente dele, muitos colegas qualificados desistiram de insistir em procurar vagas na indústria em busca de qualquer salário certo do fim do mês.

Quem continua a procurar tem que superar a tristeza todos os dias para encarar o mercado de trabalho concorrido e com poucas vagas. A Agência do Trabalho da Rua da Aurora, no Centro do Recife, a maior do Estado, vive lotada. Pelo local, passam 800 pessoas por dia, em média.

Segundo uma das psicólogas da agência, Thays Lima, a percepção da população é de que o desemprego está se arrastando por mais tempo. "O que mais ouvimos das pessoas é que elas nunca passaram tanto tempo desempregadas. Pode chegar ao ponto do candidato não ter forças para vir buscar emprego", afirma.

Crise aumentou procura por tratatamento de dependência do álcool
Crise aumentou procura por tratatamento de dependência do álcool, afirma psiquiatra
DOENÇAS

O estresse, ansiedade e a tristeza presentes no cotidiano de pessoas abaladas pela crise econômica podem evoluir para quadros mais graves, como depressão, ataque do pânico e, em último caso, suicídio. Isso acontece com pessoas que já têm predisposição a doenças mentais.

A tristeza profunda da população pode ser percebida através da venda de medicamentos. Segundo a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), a comercialização de antidepressivos e estabilizadores de humor deu um salto de 28,9% entre 2014 e 2016 (período que se iniciou a crise no Brasil), superando a variação da venda geral de remédios, que ficou em 19,5%.

Os indícios de que a tristeza pode ter alcançado um nível mais alto são pessimismo, irritabilidade, cansaço e baixa autoestima. O estresse da rotina instável pode ser o pontapé para a depressão.

Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Cláudio Meneghello Martins explica que a crise financeira é um fator estressor que desencadeia uma reação de bola de neve. A pessoa é impactada sobre o pensamento, a cognição, a concentração, o humor. Passa a ter ausência de prazer, tremores e suores.

"A grande síndrome depressiva nada mais é do que esticar um elástico. Cada pessoa tem seu limite de elasticidade, se esticar mais que isso ele rompe. É o que chamamos de break down", afirma o psiquiatra.

O estágio terminal da depressão é o suicídio. Existe, atualmente, crescimento de 3% ao ano no número de casos em todo o mundo. Em Pernambuco, os números encerraram com queda de 1,78% em 2014. Em 2015, os dados apresentaram alta de 12,65%. Em 2016, 21,66%. As causas do movimento ainda estão sendo estudadas pelos médicos. Os dados são da Secretaria de Defesa Social do Estado.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) afirma que a procura por apoio emocional cresceu. "A gente percebe uma relação entre a crise e o aumento no número de atendimentos. Uma das coisas que mais fazem as pessoas procurarem apoio emocional são as perdas. A perda do emprego, da capacidade do consumo, por exemplo. No fim de 2015, sentimos crescimento de até 20% na procura pelo serviço", comenta a coordenadora Regional do CVV no Nordeste, Karina Soares.

DEPENDÊNCIA QUÍMICA

Há, ainda, outro grupo de doenças mentais que são especialmente afetadas pelo cenário atual: a dependência química. “A junção da crise financeira com a dependência química é uma combinação perigosa. De janeiro de 2015 até agora já registramos um aumento médio entre 7% e 8% no número de internações em clínicas particulares do Brasil. Muito desse aumento se deve à dependência agravada por problemas financeiros”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Combate às Drogas (ABCD), Carlos Lothar.

Um quadro de restrição financeira ataca os dependentes químicos em duas vias. O vício tende a migrar para produtos mais baratos, como o crack, cujo potencial de dependência é muito superior ao da cocaína e heroína. Por outro lado, o tratamento particular - que pode variar de R$ 4,5 mil a R$ 6 mil por mês - se torna menos acessível.

Em Pernambuco, a demanda por tratamento de dependentes do álcool fica bem acima dos indicadores nacionais. “A crise econômica é um fator agravante também no alcoolismo. Ainda mais em um público bem específico de homens entre 30 e 50 anos de idade que ficaram desempregados ou que vinham buscando emprego e não conseguiram. Esse aumento (de demanda a partir de 2014) talvez fique entre 30% e 50%”, relata o psiquiatra especialista em dependência química e professor do departamento de psiquiatria da UFPE, Tiago Queiroz.

Segundo ele, o aumento da procura, especialmente pelos homens, acontece porque esse grupo costuma ter mais dificuldades para expressar as próprias angústias e tem mais resistência para procurar ajuda. “Quando chegam no consultório, já aumentou muito a gravidade da situação”, afirma.

O psiquiatra destaca que, durante a baixa da economia, os motivos subjetivos e individuais para o abatimento e a fragilidade são reforçados por um cenário mais palpável e generalizado, o que acaba piorando o quadro do paciente. Por isso, além do tratamento através de medicação, terapias complementares para aliviar a ansiedade são essenciais.

A crise e o impacto nas
relações pessoais

"Quando eu e meu marido ficamos desempregados, vieram as brigas. Ele é pedreiro, então, ainda conseguia alguns bicos. Mas, algumas vezes, não aceitava um trabalho porque não valia a pena. E eu cobrava dele, pois estava faltando coisas na casa. Primeiro, decidimos morar na casa da mãe dele. Mas a gente sempre brigava, e, assim, o relacionamento foi se desgastando e a gente terminou se separando".

É com resignação que Tamires Galdino, 27 anos, fala sobre a relação com o marido. As brigas eram apenas uma parte do problema conjugal. Com o desemprego, o orçamento do casal ficou pequeno para sustentar a casa onde moravam com os dois filhos, de 4 e 9 anos. O retrato familiar de Tamires é igual ao de outros milhões de brasileiros, que sentem os reflexos da crise financeira sobre as relações pessoais.

"Uma crise econômica pode levar a outras crises, com efeitos nas relações familiares, sociais e no trabalho, aumentando a violência familiar e social. Um estudo da professora e doutora Marilda Lipp, realizado em 2013 com 2.195 pessoas, fala que um dos fatores que mais estressam os brasileiros são os relacionamentos familiares e sociais, seguido pelos problemas financeiros", afirma a presidente da Associação de Terapia de Família do Rio de Janeiro (ATF-RJ), Ana Cristina Bechara.

A crise pessoal de Tamires começou quando ela passou a ficar mais tempo em casa. Trabalhava como auxiliar de serviços gerais e ficou desempregada há um ano e três meses, depois que a empresa terceirizada perdeu contratos."Quando eu estava trabalhando, era tudo bom, porque eu tinha minha independência, cuidava mais dos meus filhos. Eu comprava minhas coisas e estava na minha casinha, que eu tinha alugado. Depois, desandou", explica Tamires.

Hoje, ela vive na casa da irmã, com a mãe, o pai e os filhos. “Não tenho como ir às festas ou viagens com amigos. Eu fui ficando triste e tomo antidepressivo. Eu dependo da minha mãe e do meu pai, que são aposentados. O que mais dói é ver os filhos pedindo um biscoito, um brinquedo, e eu não poder dar", lamenta.

Para Ana Cristina Bechara, a solução é o diálogo aberto com os membros da família. "Criar a possibilidade de cooperação e apoio é essencial para transpor os momentos de crise. Seja de ordem financeira ou qualquer outra. São nas relações familiares e outras que podemos ter apoio para não nos sentirmos tão sós em momentos difíceis. Outra saída é buscar a ajuda profissional para apoio psicológico e controle de estresse em clínicas especializadas", diz.

O problema também passa por questões de gênero. Apesar de o número de mulheres chefes de família ter crescido no Brasil (em 2015, essa era a realidade em 40,5% dos lares brasileiros, segundo o IBGE), o homem ainda sente que possui a responsabilidade de chefiar. "Na época das cavernas os homens eram reconhecidos como bons provedores, pois caçavam e mantinham a comunidade, enquanto as mulheres cuidavam da tribo e eram ótimas educadoras. Temos feito atualmente um esforço tremendo para que a sociedade aceite que somos muito bons em ambas as coisas, independentemente do gênero. Mas observamos na clínica uma dificuldade grande de aceitação de ambas as partes ligadas tanto à falta de afetividade, como a ausência do dinheiro e estes dois fatores prejudicam sempre as relações, às vezes, levando a separações e divórcios", afirma a psicóloga do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Mirella Mariani.

VIOLÊNCIA

A crise econômica também pode potencializar casos de violência contra a mulher. Entre janeiro e novembro de 2016, houve aumento de 12,9% nos chamados crimes violentos letais intencionais (CVLI), que incluem homicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte.

"O que a gente observa é que nos períodos de crise a violência aumenta de forma geral. Em 2015, não observamos o aumento nos crimes de violentos letais intencionais contra mulheres. Em 2016, a gente viu isso. Os índices de violência contra a mulher, no entanto, permanecem mais baixos do que a média geral. Boa parte dos crimes identificamos como feminicídio, aquele em que a mulher morre pelas questões de gênero, pela condição de ser mulher", explica a diretora geral de Enfrentamento da Violência de Gênero da Secretaria Estadual da Mulher, Bianca Rocha.

Em contrapartida, Pernambuco registrou queda de 5% nas ocorrências de violência doméstica entre janeiro e novembro de 2016, na comparação com o mesmo período de 2015. A gerente geral de Cidade Segura para Mulheres do Recife, Tadzia Negromonte, explica que o desemprego e a situação econômica não são causas para este tipo de crime, mas podem ser gatilhos. “Com a crise, vem a tensão pela ameaça do desemprego, os menores salários, a falta de trabalho e até mesmo a saída da mulher de casa para trabalhar. Isso pressiona a família e potencializa a situação de risco para a mulher que já vive em um ambiente instável”, diz.